A
sociedade ocidental (e, talvez, outras sociedades também) vem
vivendo uma crise na instituição do casamento, que se repercute na
família e na sociedade. A crise do casamento demonstra a dificuldade
ou inabilidade do casal em estabelecer relacionamentos saudáveis,
funcionais e harmônicos, onde a paz, a justiça e a felicidade
predominam em seu lar.
Uma
das causas dessa crise no casamento tem sido o abuso de autoridade do
marido para com a esposa. No passado, isso era possível, pelo homem
ter estado na posição daquele que traz dinheiro (provisão) para a
família, mediante o trabalho fora de casa. A mulher pode ter se
sentido desvalorizada em seus esforços e trabalhos domésticos, por
esses não serem remunerados, e/ou pela falta de reconhecimento do
valor desses em seu próprio lar, e/ou, na sociedade.
A
mulher, como qualquer outro ser humano, gostaria de ser considerada
de igual valor aos outros seres humanos. Parece que o conceito do
valor de um ser humano, em vez de estar vinculado solidamente à
essência do seu ser, atrelou-se ao dinheiro ou bem materiais que a
pessoa produz. Afinal, por que o ser humano que vive na prática dos
bons e justos valores, ajudando conforme suas possibilidades, não
seria tão valoroso como qualquer outro que busca o mesmo?
Vários
direitos que os homens possuíam, não eram concedidos às mulheres,
como o direito de votar, o direito de dirigir, o direito a trabalhar
fora de casa, etc. No passado, em algumas civilizações, a mulher
não tinha direito de ser uma testemunha para depor em um tribunal. A
mulher não tinha autonomia. Ela era parcialmente capaz perante a
sociedade, necessitando de permissões do marido. Se o esposo fosse
um bom líder, não dominador, respeitoso, e ela fosse valorizada
como lhe é devido, ela podia ter um bom casamento e uma vida feliz.
Mas, e se ele fosse um opressor, um líder dominador ou a
maltratasse? Então, ela estaria refém dele, sofrendo dentro de uma
prisão, sem ninguém para ajudá-la, pois, seu suposto ajudador (seu
marido), tinha plenos poderes sobre ela, sendo responsável por ela
perante a lei, da mesma forma que um pai é por sua filha solteira, e
a sociedade lhe dava ouvidos através do marido.
Mulheres,
sabendo de casos de opressão de outras mulheres, começaram a se
unir e se organizar para ajudá-las a se libertarem de seus maridos
que as oprimiam ou agrediam. A aquisição de autonomia das mulheres
foi necessária devido a abusos de autoridade cometidos por seus
maridos. Mas, não somente devido a isso. A mulher gostaria de ter
sua opinião como cidadã respeitada sobre política e na sociedade,
em geral. Várias mulheres tinham o desejo de estudarem mais para
poderem ajudar a sociedade em outras áreas de trabalho ou atuação,
além das tarefas domésticas ou das profissões consideradas
femininas naquela época. Para isso, precisavam da autorização de
seus maridos e que a sociedade lhes desse oportunidades de estudo e
atuação nas diferentes áreas, que, até então, eram estritamente
masculinas.
Nesse
sentido, essa
mobilização das mulheres, chamada “movimento feminista”, passou
a lutar pela independência da mulher em relação ao seu marido,
para garantir proteção a elas de seus maridos abusadores ou
violentos, e pela sua autonomia de forma geral e aquisição de
direitos iguais aos dos homens (sem necessitar da permissão do
marido, tal como uma criança – ao que se dá o nome de
“emancipação feminina”), como o direito ao estudo, ao trabalho
remunerado, ao voto, a dirigir, enfim, a realizar suas escolhas
individuais de maneira autônoma e em igualdade com os direitos dos
homens. Muitas vezes, a mulher havia sido considerada não tão capaz
quanto o homem para realizar determinadas funções. Na medida em que
as lutas por oportunidades de estudo e atuação em diversas áreas
sociais foram sendo vencidas, as mulheres têm se mostrado muito
capazes, desde então.
A
mulher não quer ser reduzida à posição de escrava nem ser um
objeto de uso de seu marido., nem de ninguém. A mulher, como esposa,
é uma ajudadora, que deveria ser honrada por seu marido, pois ela o
completa e é parte fundamental na construção do lar e da família.
A construção do lar envolve tarefas físicas, mas também
relacionais e educacionais, pois requer sabedoria relacional e
educacional, e vivência de valores éticos (comportamento ético e
controle sobre suas emoções e reações) que seja modelo
educacional. Exige dedicação e aprendizado nessas áreas. Ninguém
quer ser reduzido, nem usado. No casamento, ambos devem servir um ao
outro, se doando em amor, em ajuda mútua e na construção comum do
lar, que deve ser um ambiente de respeito, paz, afeto, valorização
e ajuda mútua e amor, onde pessoas podem se desenvolver e
amadurecer. Ambas as partes, marido e mulher, são igualmente
valorosas e fundamentais para essa construção do lar, embora possam
ter talentos e funções distintos.
Todas
as colaborações e cooperações em sociedade devem considerar
que
todos são igualmente valorosos (intrinsecamente, em sua essência,
todos os seres humanos foram feitos à imagem e semelhança do
Criador, que é sempre bom, conforme a Bíblia Hebraica (antigo
testamento)) e contribuem, dentro de suas possibilidades, dons e
talentos, para uma construção comum. Mesmo que haja um líder, o
valor do liderado não é menor que o valor do líder. Eles realizam
funções distintas e que se completam. Todos somos interdependentes
desde bebês até a velhice e na morte.
Toda
relação utilitarista não é uma relação de amor verdadeiro.
Pois, o amor verdadeiro se doa pelo próximo, sem o desejo de se
aproveitar dele ou de usá-lo para determinado fim egocêntrico. O
amor se doa naquilo que contribui para que o outro seja pleno e
feliz, no exercício e expressão do seu ser (em amor e justiça),
dos seus dons, talentos e cumprimento de suas missões no mundo. Quem
ama cuida para que nada falte a pessoa amada daquilo que ela
realmente necessita como ser humano.
A
história sobre a aquisição de direitos da mulher em igualdade com
os direitos dos homens, pode nos ajudar a refletir sobre essa
tendência do ser humano a dar maior valor às atividades e pessoas
mais bem remuneradas, ao dinheiro em si. Isso não corresponde à
realidade, pois há muitas bondades e serviços que não são
contabilizados nem recebem recompensa financeira ou talvez nem sejam
vistos por outros olhos humanos, mas são essenciais. Aliás, o mundo
é sustentado pelos atos de bondade, de doação pelo próximo, sem
ter intenção de receber nada em troca. E eles não são, muitas
vezes, remunerados, são dados gratuitamente, sem interesse, por
amor.
Da
mesma forma, o casamento também não pode ser sustentado
verdadeiramente, sem amor doador. Muito desses serviços podem ser
erroneamente considerados sem (muito) valor para pessoas ou para
sociedade, pois não são pagos, mas os valores éticos vividos fazem
com que se construa o lar, local fundamental para dar condições ao
desenvolvimento e crescimento humanos apropriados (o lar é, de certa
forma, a incubadeira da sociedade). E, de muitos lares saudáveis se
constrói uma sociedade harmônica e cooperativa. Talvez, seja
exatamente a correção dos valores e das ênfases dos nossos tempos
e esforços que deva ser realizado, para que nossos casamentos,
famílias e sociedades sejam mais humanas, mais pacíficas, mais
valorizadoras do diferente delas, mais respeitadoras da doce harmonia
da cooperação de uma grande família onde todos são igualmente
valorosos e importantes na construção comum.
A
mulher deve se respeitar e se grata pelo ser que é, na bela essência
que a caracteriza, e pelas capacidades que recebeu do Criador. A
mulher, em particular, foi dotada de uma habilidade especial que
consiste na capacidade de gerar filhos em seu próprio corpo. Mas,
isso não a resume, nem a seus talentos e características. É parte
de seu potencial. Nenhum ser humano é igual a outro em suas
características, talentos e dons, mas, todos têm o mesmo valor, em
sua essência. A mulher não é fisicamente igual ao homem, nem deve
tentar ser igual para ter o mesmo valor. Ela tem o mesmo valor, mesmo
que alguém não o reconheça. É um problema dos olhos de quem vê,
dos valores, desejos e interesses que a pessoa abriga no coração.
Também, a solução não está em diminuir ninguém, nem mesmo se a
pessoa tenha sido opressor. Se foi um opressor, machucou
primeiramente a si mesmo, à sua essência, além de outras pessoas.
A
solução está em não deixar que coisas ou circunstâncias como o
poder, o status ou o dinheiro definam os valores da sociedade. Quem
coloca essas coisas acima do amor, da justiça, da alegria de servir
ao próximo para benefício dele, não pode ter uma vida
significativa, feliz e construtiva, seja no âmbito conjugal,
familiar ou social.
Outro
aspecto a ser refletido é o fato de que ambos do casal trabalhando
fora de casa, muito provavelmente, não tem mais tempo para se
dedicarem à educação dos filhos como antes. Especialmente, a
mulher é frequentemente sobrecarregada, pois, além do serviço
doméstico, tem
que dar conta do trabalho fora de casa e da educação dos filhos. É
muito fácil perceber que uma pessoa que se dedica jornada integral
de trabalho, dificilmente poderá até mesmo cuidar dos afazeres
domésticos apropriadamente. Pode ser que, para isso, faça uso dos
finais de semanas, das folgas, feriados e férias para pôr em dia o
que não teve tempo para resolver durante as semanas de trabalho. O
tempo dedicado aos filhos, o acompanhamento apropriado de que eles
necessitam, as oportunidades para conversar e receber instruções
para a vida ou desfrutar de atividades familiares saldáveis é muito
reduzido. Isso, se o ambiente em casa for harmônico e funcional.
A
consequência da sobrecarga de trabalho da mulher, e, às vezes,
também do homem, é falta de desenvolvimento apropriado das novas
gerações, a falta de orientação e educação apropriada dos
filhos. As crianças e adolescentes estão cada vez mais a mercê das
informações que encontram nas mídias e redes sociais, sem ter com
quem dialogar sobre elas mais intimamente, e assim desenvolver
consciência crítica, sólido alicerce de valores éticos, etc. A
escola não aborda todos os assuntos e problemáticas com os quais as
crianças e adolescentes se chocam. E lá fora, o mundo está
bastante confuso, e muitas vezes, com valores distorcidos pela
valorização do dinheiro, dos bens materiais, do poder, da posição
social (status) e da honra de uns em detrimento dos demais. Isso, sem
mencionar a crise escolar, principalmente da escola pública
brasileira, da sua falta de estrutura para lidar com as demandas, a
desvalorização da educação pelo país e de seus profissionais, e
a dissociação de alguns modos e conteúdos escolares com as
necessidades humanas e os problemas da vida real dos alunos, suas
famílias e comunidades.
Portanto,
a questão da valorização da mulher requer que a sociedade como um
todo reflita sobre os valores que vem escolhendo e quais são as
metas para o futuro. Seria sábio que nos lembremos que os valores
das pessoas não estão em questões circunstanciais de exercer ou
não atividade profissional remunerada, por exemplo. Mas cada ser
humano tem valor intrínseco e é único, com uma combinação de
características únicas, talentos, dons e capacidades, conforme suas
missões a realizar. Cada um tem missões únicas a realizarem, as
quais outras pessoas não são capazes de fazer. Há, portanto, a
necessidade de compreender melhor que não devemos estar em
competição, mas em cooperação, pois, todos somos interdependentes
e precisamos de muitas coisas para nossa sobrevivência e
desenvolvimento, para suprir nossas necessidades humanas e
desempenhar nossas missões.
Esse
pensamento se aplica mais precisamente na área do casamento, no
entendimento de que todos temos fraquezas e fortalezas em diferentes
áreas. E essa é a beleza da diversidade com que o Criador fez o
mundo. Se a mulher é capaz de gerar filhos dentro de seu corpo, isso
é um dom maravilhoso que não deve ser diminuído em relação aos
demais. Seus hormônios podem fazer com que seja mais emocionalmente
vulnerável às vezes, o que não tira de forma alguma sua beleza e
valor. Além disso, a mulher pode ter missões de contribuição não
somente na esfera familiar, mas também na sociedade como um todo,
remuneradamente ou não. O foco é que um cônjuge ajude ao outro a
se desenvolver e usar seus talentos e dons para contribuir ao máximo
para a família e sociedade.
Devemos
ser ajudadores uns dos outros e não competidores. A comparação e a
competição não fazem nenhum sentido. Cada um é único e possui
única combinação de características essenciais, dons e talentos.
Por isso, a missão de cada um, só cada um pode desempenhar da forma
única como faz. É importante que todos sejam plenos e genuínos e
tenham liberdade para isso, na multidão de diversidades de
características, talentos e dons que existem. Também a mulher que
deseja se dedicar somente a seu lar deve ter liberdade e valorização
para mergulhar em sua missão, sem sofrer preconceitos ou julgamentos
negativos. Cabe a nós escolhermos ter a mentalidade de como ajudamos
a construir os outros (que são diferentes de nós), sem diminuí-los,
dominá-los ou oprimi-los.
A
competição não faz sentido, pois todos devem ter direito ao
trabalho remunerado e ao sustento. Algumas pessoas impossibilitadas
são exceções. Mas, elas não deixam de poder também brilhar com
suas contribuições, de outra maneira, à sociedade. Não deve haver
espaço para a diminuição de um ou a exaltação do outro. Todos
temos igual valor intrínseco. É só focarmos nas nossas
potencialidades em amar e fazer boas e justas ações que somos todos
muito frutíferos e férteis em diferentes áreas. Precisamos nos
responsabilizar por ajudar uns aos outros para que ninguém esteja
excluído do cuidado social e da rede de cooperação que deve
funcionar harmonicamente. Para isso é necessário reconhecer os
valores intrínsecos e iguais nos seres humanos, e perceber a rede de
contribuições mútuas da qual todos interdependemos. Na natureza, a
cooperação em que todos participam também é essencial à
manutenção da vida. Qualquer prejuízo de uma parte dessa
cooperação, prejudicam todo o ecossistema.
Da
mesma forma, esposo e esposa são complementares e interdependentes
na formação de um lar harmônico em que todos sejam igualmente
valorizados e tenham espaço para se desenvolverem plenamente.
Precisamos, para isso aprender a respeitar e amar o diferente de nós,
apreciando seus dons e características que nós não temos, em vez
subjugá-los, diminui-los ou julgá-los desfavoravelmente. Assim,
aprendemos e crescemos uns com os outros em liberdade de escolhas e
iremos numa direção construtiva nas relações conjugais,
familiares e sociais. Pois, não podemos esquecer que é do lar
construído por um casal que gera novas pessoas, e de diversos lares
e constitui a sociedade. Então, precisamos pensar com carinho como
estamos ajudando ou não as crianças a se prepararem para a vida em
sociedade, dando a elas os subsídios, suporte, amor e cuidado
comprometidos com suas necessidades básicas humanas.
*agradecimento ao desenhista da pixabay.com que gentilmente cedeu a ilustração deste artigo.