terça-feira, 1 de março de 2022

O Homem que Redescobriu seu Coração

 

Era uma vez uma sociedade, onde o valor de cada pessoa era conforme suas conquistas e sucessos. Foram ensinados que deveriam estudar para ter os melhores desempenhos, para assim, terem trabalho e serem valorizados pela sociedade. Pensavam que tinham que competir uns com os outros para sobreviverem. Então, cada um se fechava em si mesmo, estudando como louco para tirar notas altas para não serem humilhados pela sociedade. Comparavam-se uns com os outros e não conseguiam ser muito amigos, pois, afinal, a rivalidade e a corrida pela valorização estava presente. E ninguém queria ser desvalorizado.

Quando trabalhavam em assuntos diferentes era mais fácil serem amigos, pois a competição, pelo menos de trabalho, não existia. Mas, a competição na vida continuava. Pois, nessa sociedade, as pessoas eram medidas pela quantidade de dinheiro, conquistas e sucesso que tinham. Mas, havia algo muito contraditório em tudo isso: certamente quem mede, usa um critério ou instrumento de medida. E o dessa sociedade era principalmente o dinheiro e os alcances científicos ou atléticos, ou de altas posições sociais, como cargos de chefias e poderes, sejam políticos, acadêmicos, religiosos, etc.

Entretanto, no meio dessa sociedade, havia um grupo de pessoas especiais. Essas eram pessoas que tinham certas limitações físicas, cognitivas ou intelectuais. Elas estavam sempre unidas e não se mediam pelos mesmos parâmetros dessa sociedade. Certamente, tinham desvantagens para alcançar as altas posições, os altos desempenhos em certas atividades, etc, mas algo mais significativo não os faltava: aceitavam uns aos outros assim como eram, sem exigirem uns dos outros. Atribuíam valor intrínseco uns aos outros, pelo seu ser, pela sua essência, não pelas circunstâncias de terem ou não conquistas. Afinal, para eles, o mais importante é o que o ser humano tenha um bom coração. Talentos e dons todos têm, de modo diferente. E assim, todos podem contribuir, de maneiras diferentes na sociedade. Mas, assim como todas as pessoas têm fortalezas e dons, todas tem também limitações e fraquezas.

Suas dificuldades haviam lhes ensinado algo importante: que todos somos limitados, mas isso não tira de nós a nossa beleza interior. Afinal, o amor que tinham um para com os outros, o cuidado e aceitação mútua, a alegria de poderem se divertir juntos e compartilhar a vida, tudo isso era tão maior que suas limitações. Mas, algumas pessoas que não tinham necessidades especiais ainda não haviam aprendido essas lições. Comparavam-se e competiam umas com as outras em suas posições, cargos, conquistas e prêmios. Não aceitavam as pessoas que não haviam conquistado muito como eles. Não conheciam o amor e o cuidado mútuo. Pois, estavam muito ocupados estudando, trabalhando, para serem bem-sucedidos. Quase não tinham tempo nem para sua própria família, o que dirá para serem solidários, amorosos e gentis com as pessoas que não eram bem-sucedidas aos olhos da sociedade

Então, veio uma grande crise econômica, e cada vez mais pessoas bem-sucedidas foram demitidas, e não mais encontravam trabalho. Passaram a serem vistos como fracassados por aquela sociedade individualista. Entre eles, estava Francisco. Ele se lembrou das pessoas especiais de sua sociedade, pois agora compreendia como talvez se sentissem por serem considerados não tão valorosos pela sociedade como as pessoas que têm, supostamente, menos limitações evidentes. Olhou para os profissionais desvalorizados da sociedade, a pessoa da limpeza, a pessoa que ajudava a achar o livro que ele queria ler na biblioteca, o professor de educação física que ajudava as pessoas a fazerem ginástica e assim se manterem saudáveis.

E pensou: como pude ser tão tolo a ponto de me deixar levar por essa onda onde só alguns são valorizados e outros depreciados? Todos precisamos de todos, pois as pessoas com seus diferentes talentos e dons, diferentes fraquezas e fortalezas se completam, aprendendo umas com as outras, se não as desprezarem. Por que então alguns são vistos como menores ou com menor valor? Quem está medindo, pensou ele? O dinheiro? A fama? Se temos algum dom ou habilidade, quem nos deu? Existe alguém que não tenha nenhum dom ou que esteja em vão no mundo? Por que não é garantido a todos o direito ao desenvolvimento e ao trabalho, cada um conforme suas capacidades e talentos? Então, Francisco verdadeiramente se assustou consigo mesmo, por ter feito parte daquele jeito de pensar o mundo, se tornando um escravo de um sistema que conforme a circunstância valoriza alguns e não se importa com os outros.

Passou a se sentar com todas as pessoas que antes evitava, por não fazerem parte dos admirados pela sociedade. Viu sua simplicidade e aprendeu a amar. Deu prioridade a ver o amor nos corações. Percebeu o quanto se importavam e cuidavam uns dos outros. E um podia contar com o outro nas suas dificuldades. E cada um fazia o máximo de suas possibilidades para ajudar um ao outro e o mundo. E todos tinham características e dons diferentes, e todos, inclusive ele, tinham limitações diferentes. Um, era paciente e meticuloso, o outro, era ágil e rápido; outro era sensível e perceptivo, outro, era talentoso nas artes, um era extremamente carinhoso e afetivo, outro, era engraçado e alegrava a todos, e assim por diante.

Percebeu que no grupo de pessoas especiais, não havia competição. Ela não fazia sentido. Todos tinham espaço e lugar para ser e existir com integridade. Quando alguém precisava de trabalho, os outros ajudavam a encontrar. Muitos trabalhavam em firmas que tem algumas vagas separadas para pessoas especiais. Outras pessoas que trabalhavam na limpeza, não tinham desenvolvido tanto a sua intelectualidade, mas sabiam muito sobre a natureza e haviam sido agricultores. Francisco percebeu o quanto havia sido ignorante. Pensou que pessoas simples como essas produziam seus alimentos e, mais recentemente, limpavam sua sujeira. Então, Francisco sentiu a sua miséria e que sua limitação era maior do que a de todas essas pessoas. Pois, era na alma, na sua essência, já que tinha se desvirtuado do que realmente importa por medo de ser humilhado por um sistema cruel e sem amor, onde a circunstância de uma prova ou de um conhecimento serve para elevar uns em glória e rebaixar outros ao descaso e à falta de cuidado, respeito e amor.

Então, Francisco decidiu que queria aprender a amar e a ser ele mesmo em essência e a estar alinhado aos valores do Criador. Decidiu dar valor a todas as pessoas, pois cada um é feito à imagem e semelhança do Criador e tem características, talentos e dons únicos. Mas o mais importante, cada um pode ser amoroso e decidir amar ao Criador e ao próximo como a si mesmo, com todas as capacidades que Ele deu, sejam elas mais ou menos limitadas nesse ou naquele aspecto. Cada um tem missões que só ele pode desempenhar no mundo, valorizem os outros homens ou não.

Decidiu que voltaria a estudar e trabalhar ajudando outras pessoas a desenvolverem seus potenciais. Hoje ele trabalha como educador e psicólogo de pessoas em situação de risco, ajudando-os a desenvolverem seus talentos, sem perderem de vista o mais importante: que nunca deixem de colocar o amor ao próximo em primeiro lugar. Afinal, um bom coração é mais importante que mil talentos e prêmios. Pois, a pessoa de bom coração usa seus talentos para benefício dos outros, para nunca rebaixar nenhum outro ser humano, para contribuir que todos tenham vida íntegra.

Mas, a pessoa que ainda não aprendeu a amar, desperdiça todos os seus talentos em um mundo que eleva uns e pisa nos outros, de acordo com valores exteriores e passageiros, como dinheiro, obras humanas, conquistas externas, para manter a si mesmo elevado.

E Francisco notou que se elevar e diminuir outros é idolatria, fazer de si ou de algo criado um deus. Mas só o Criador é Deus. E cabe às criaturas aprenderem o amor ao Criador e às outras criaturas. É isso que deu à vida de Francisco sentido e felicidade, o amor que redescobriu sem seu coração, em sua essência, no seu ser interior.





quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Cultivando o Respeito, a Calma e a Paz




Pedro e Maria eram dois irmãos adolescentes que se amavam muito. Viviam se divertindo e ajudavam um ao outro nas mais diferentes tarefas e desafios que passavam.

Certo dia frio de inverno, os irmãos estavam em casa. Pedro pediu para sua irmã Maria ligar o aquecedor, pois estava sentindo frio. Maria ligou o aquecedor.

Maria pensou: Seria legal hoje fazer um bolo para tomar com chá à tarde. Vou fazer aquele bolo que meu irmão adora. Ele vai ficar muito contente.

Maria começou a preparar o bolo, mas percebeu que um ingrediente estava faltando. Resolveu ir ao supermercado ao lado para comprá-lo. Já havia ligado o forno para preaquecê-lo. Então pensou: o forno está ligado e aqui em casa já está quentinho e vai ficar ainda mais. Foi até o quarto de seu irmão para perguntar se podia desligar o aquecedor. Mas, Pedro estava dormindo.

Então, Maria decidiu desligar o aquecimento da casa e foi até o supermercado buscar o ingrediente que faltava. Ficou contente pois conseguiu encontrá-lo e voltou logo para casa. Continuou preparando o bolo quando de repente.

- Pedro irado gritando apareceu na cozinha e disse: Eu já disse que estava com frio! E descontrolado disse coisas que machucaram os sentimentos de Maria. Pedro estava nervoso, com o coração acelerado. Em vez de se acalmar e pensar antes de falar e agir, foi dando espaço para a raiva.

Maria ficou quieta, muito embora por dentro se sentisse magoada. Sabia que conversar com uma pessoa que está fora de si não leva a nada bom, pois quando deixamos os impulsos nos governarem, ficamos descontrolados e podemos destruir as coisas mais importantes na vida: nossos relacionamentos de amor e amizade. Por isso, escolheu como prioridade cultivar a paz em seu lar, e fazer escolhas através do pensamento, não de fortes emoções, pois essas podem nos levar a conclusões enganosas. O mais importante é focar em como resolver os problemas que aparecem sem magoar ninguém nem causar dano.

Maria ficou um pouco triste e dolorida por dentro. Mas procurou focar em continuar seu bolo. Terminou de assar o bolo e preparou uma xícara de chá quentinho para levar para seu irmão.

Pedro, quando viu seu bolo favorito e o chá ficou envergonhado por sua atitude anterior. Agora que estava calmo, conseguia perceber que Maria o amava, e que sempre se importava com ele. Pensou: Ela jamais teria desligado o aquecedor se soubesse que eu ainda estava com frio. E Maria lhe disse: Me desculpe, achei que a casa já estava quente demais, e preocupada com os gastos de aquecimento, desliguei o aquecedor.

Pedro sorriu e disse: Muito obrigada. Pedro pensou: Como fui tolo. Por que não me acalmei e perguntei por que ela havia desligado o aquecedor? Não posso ficar bravo cada vez que as coisas não são do meu jeito. Afinal, quando há mais de uma pessoa em um lugar, as coisas não são só de uma maneira. Cada pessoa deve dar um passo em direção ao outro, saindo dos seus interesses para os interesses dos outros. Assim, construímos algo nosso. Nem tudo do meu jeito, nem tudo do jeito do outro. Eu me preocupo com o outro e o outro se preocupa comigo. E quando vier alguma dúvida ou algo que não gostamos, em vez de dar espaço para irritação, podemos manter o nível amoroso de conversar, e chegar a um acordo, tomando decisões conjuntamente.

Maria disse: Sabe, eu ia perguntar a você se podia desligar o aquecedor, mas você estava dormindo. Como já tinha aquecido por um tempo e o forno estava ligado, e a casa estava quentinha, resolvi desligar achando que faria um pouco de economia com os gastos. Me desculpe. Quando for assim e não tiver oportunidade de te perguntar, vou esperar até poder te consultar. Não quis te perturbar. Só quero sua felicidade e bem-estar sempre. Me desculpe.

Pedro disse: Eu sei. Me desculpe ter falado com você daquele jeito agressivo. Então, se abraçaram e comeram bolo com chá quentinho juntos e tiveram uma maravilhosa tarde.


terça-feira, 30 de novembro de 2021

Super-heróis do dia a dia

Em uma grande cidade morava um menino chamado Rodrigo. Ele queria ser muito valorizado, quase como um super-homem. Queria ser reconhecido e admirado por todos. Tudo o que fazia, todo o dinheiro que ganhava de seus pais e todos os seus esforços eram usados nesse sentido.

Rodrigo não conseguia perceber o valor dos serviços tidos como “menores” que aconteciam no seu dia a dia, pois eles não eram valorizados pelos adultos ao seu redor. Eles passavam pela sociedade quase desapercebidos, embora fossem essenciais e feitos com muito amor pelas pessoas em seu dia a dia.

Rodrigo queria algo que o fizesse ser bem-visto aos olhos de todos, afinal, queria ser valorizado, querido, apreciado. Quando ficava sabendo que um médico, por operar com sucesso seu paciente foi elogiado e que médicos eram valorizados, queria ser médico. Quando um empresário bem-sucedido recebia aplausos na televisão, queria ser empresário. Quando um banqueiro ficou famoso por emprestar dinheiro para uma grande quantidade de pessoas durante a crise, Rodrigo queria, então, ser banqueiro. Quando via um astro da música popular era aclamado pelos fãs, queria ser cantor. Quando um bombeiro foi bem-sucedido em fazer um resgate e saiu da capa da revista, Rodrigo queria ser bombeiro. Quando a foto de um juiz aparecia em todos os jornais, por ter ajudado a julgar um caso complicado, Rodrigo queria ser juiz. E assim por diante. 
Dessa forma, Rodrigo andava como uma onda, oscilando para cima e para baixo, sem saber quem ele era, o que era realmente importante para ele e quais eram os seus dons e talentos, ou seja, quais coisas tinha facilidade e gosto para realizar.
 
Certo dia, Rodrigo teve um sonho e nesse sonho todas os profissionais passavam por ele. 

O padeiro mostrava-lhe o pão que ele havia comido, o costureiro mostrava a roupa que ele estava usando, o farmacêutico mostrava o remédio que ele tinha tomado que ajudou ele a ser curado, o lixeiro, mostrava a cidade e os rios limpos, pois ele ajudou os papéis, metais, vidros, e plásticos a serem reciclados e o lixo orgânico a ser levado para os aterros sanitários que previnem o lixo de contaminar o solo. Tudo isso foi indispensável para sua saúde e bem-estar. 

O jardineiro lhe mostrou que, sem seu trabalho, não haveria um jardim bonito no parque, nem os animais passarinhos, patos, esquilos, etc, seriam atraídos ao parque, sem as plantas e árvores das quais ele cuidava. Sem a natureza, a cidade ficou só concreto … era muito triste. Além isso, o ar poluído não se renovava, pois não havia plantas e árvores para produzir oxigênio suficiente para o ser humano respirar bem. A vida na terra estaria ameaçada se o ser humano não cuidasse bem da natureza. 

O professor apareceu mostrando como ele e sociedade não conseguiriam resolver os problemas das diversas áreas por falta de conhecimento e sabedoria. A sociedade seria caótica, cheia de problemas mal ou não resolvidos. Tudo quebrado, tudo mal feito ou feito de modo a causar dano. As pessoas não tinham respeito, não sabiam conversar sobre as diferenças sem faltarem com o respeito, não controlavam suas emoções e o país explodiu em violência e as coisas não funcionavam. Então, haveria enorme número de desempregados, e o país precisaria importar profissionais estudados de outros países para saberem como resolver os problemas das diversas áreas de conhecimento (engenheiros, técnicos, enfermeiros, advogados, professores, psicólogos, assistentes sociais, operários de fábricas, artesãos, artistas, músicos, etc) e dos relacionamentos entre as pessoas. 

O sonho de Rodrigo lhe mostrou como seria a vida dele na cidade, sem um dos profissionais que hoje colaboram em suas funções. Tudo não ficava bem. Rodrigo percebeu que muitos dos profissionais existem para contribuírem para atenderem necessidades básicas dos seres humanos como comer, vestir, morar, transportar, se comunicar, ter higiene e boa saúde, etc. Esses profissionais podiam, aos olhos de alguns, passarem desapercebidos ou até erradamente serem considerados não tão importantes, mas eram, na verdade extremamente valiosos e essenciais. 

Em seu sonho, cada profissional aparecia a ele mostrando o fruto e importância do seu trabalho, onde o fruto do seu trabalho era indispensável para a vida dele. Rodrigo entendeu que todos os profissionais são importantes e fundamentais – e todos deveriam ser valorizados e serem pagos suficientemente bem para terem boa qualidade de vida, sem que nada essencial lhes faltasse. 

Também notou que todos eles têm dias difíceis e dias vitoriosos, mas nem sempre seu trabalho é reconhecido, embora tenha muito valor, valor indispensável para a sociedade. Sem o professor, as pessoas não poderiam aprender.. sem o agricultor, as pessoas não teriam nem frutas nem vegetais -tudo tem ciência – sem a tecelã e a costureira, não teríamos o que vestir; sem o construtor, não teríamos onde morar, e assim por diante. 
Mas pensou: então porque cada um deles não é valorizado e não ganha o suficiente para viver sem estar preocupado em pagar as contas ou se algo ira lhes faltar? Rodrigo refletia: "Todos estão colaborando para as necessidades humanas. O mais importante não é qual dom ou talento uma pessoa tem ou desenvolve, mas o amor com que ela usa seus talentos e dons...fazer para beneficiar a outros através de seu trabalho". 

Quando acordou, fez a pergunta a seu pai: "Pai, por que todos os profissionais que fazem bem seu trabalho não são valorizados? Por que alguns não ganham o suficiente para viverem sem se preocuparem se algo vai faltar ou se vão conseguir pagar as contas? ".
  "Esta é uma longa história" – respondeu o Pai. 
 E disse: - "Algumas pessoas querem ser mais valorizadas que as outras, ou terem mais dinheiro, reconhecimento ou poder. Então, elas diminuem o valor do serviço dos outros aos olhos da sociedade para elas mesmas ganharem mais, e com isso, ficarem mais ricas e influentes".
 "E os considerados “pequenos” profissionais não podem fazer nada?" - disse Rodrigo. "Eles tem sindicatos, mas os governos não dão muita atenção para eles, para que os grandes continuem tendo vantagens sobre eles"- respondeu o Pai. 
 "Mas, por quê? " "Acredito que algumas pessoas perdem a noção do que é mais importante no trabalho e na vida: beneficiar aos outros, por amor às pessoas. Então, elas se perdem e acabam fazendo esse tipo de injustiça, por que querem ser ricas ou poderosas ou aplaudidas pela sociedade. Mas há esperança filho! Há muitos trabalhadores que continuam fazendo seu trabalho por amor, beneficiando as pessoas, sem prejudicarem ninguém. Elas não desvalorizam os serviços dos quais se beneficiam todos os dias e são agradecidas a todos. 
Afinal, todos somos interdependentes e precisamos de muitas coisas e serviços uns dos outros para sobrevivermos e termos boa qualidade de vida.
 Muitas pessoas nos ajudam todos os dias, mesmo que não as vejamos. Por exemplo, os profissionais que estão tratando a água para que possamos tomar um banho limpo ou beber água potável. Raramente vemos esses profissionais. Mas eles estão trabalhando para nós". 
 Nós devemos ser agradecidos e lembrar que o trabalho de cada profissional exige esforço, conhecimento e dedicação, e que ele nos beneficia todos os dias. 
Assim como gostaríamos que outros não desvalorizassem nosso trabalho, não devemos nunca desvalorizar o trabalho dos outros. Pois, somos beneficiados por eles todos os dias, mesmo que alguns não nos valorizem. Todo serviço correto que ajuda a suprir as necessidades básicas humanas, tem muito valor, principalmente se for feito com amor no coração, gerando somente benefício à sociedade. 

Rodrigo disse ao Pai: "Pai, de agora em diante vou ser muito mais agradecido a cada um deles. E vou contar aos meus colegas que todos são tão importantes que não podemos viver bem sem o serviço que eles fazem. Assim, mais pessoas não vão aceitar que eles sejam desvalorizados ou não tenham boas condições de salário e vida".
"Boa ideia, filho. Vou procurar elogiá-los mais e ser mais agradecido a eles também. Afinal, você pode imaginar quanto trabalho teríamos que fazer sozinhos se eles não existissem? Nenhum de nós conseguiria viver bem. A sociedade é feita de cooperação, respeito e valorização mútua. E todos tem dons e talentos únicos para colaborarem nessa rede cooperativa."

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Focar em viver os Valores Éticos é essencial para uma Vida Construtiva e Feliz

 

imagem cedida por geralt em pixabay.com

Como devemos usar nosso tempo? Temos nesse mundo uma série de obrigações com respeito ao cuidado e sustento do nosso corpo, com vistas a suprir nossas necessidades materiais. 
No entanto, o mais importante não deve ser nunca perdido de foco: o amor e cuidado uns dos outros, mas não somente acerca das necessidades materiais, também das espirituais e emocionais. 
Servir uns aos outros, ajudar uns aos outros a sermos a cada dia mais amorosos e justos, é sempre o que dá sentido à vida: o amar e o colaborar para que o outro ame e se desenvolva e dê frutos de amor e justiça cada dia mais.

    Sem o mais importante, a vida fica sem sentido, já que não é o propósito de nossa vida neste mundo somente manter nosso corpo saudável e em bom funcionamento. Nossa boa saúde nos ajuda a servir melhor às outras pessoas nesse mundo, nos doarmos mais em amor no serviço ao próximo, com todos os nossos dons, talentos, condições materiais e também espiritual e emocionalmente.

Quando o foco da vida está em amar ao Criador de todo o coração, ou seja, amar ao próximo como a si mesmo, tudo que somos e temos dedicamos ao serviço do estabelecimento dos valores éticos (amor e justiça) no nosso e no coração das outras pessoas.

Alguém que cozinha ajuda a alimentar outras pessoas, amando-as e desejando que, com aquela necessidade suprida, o outro possa melhor dar de si para o Criador ele mesmo, servindo ao próximo em amor. O que costura ajuda a proteger o corpo do frio, e assim as pessoas podem servir melhor a Ele. Outros ajudam a construir as casas de que necessitamos para morar. Entretanto, só há sentido em cada pequena ou grande contribuição material se o coração de quem faz, se doa na intenção do benefício alheio em todas as esferas de seu ser. Quando somente conquistamos o sustento material, sem nos doarmos em amor para benefício do próximo, então parece que não há sentido no que fazemos.

Por outro lado, o mundo nos pressiona a excessivamente nos concentrar em consumir mais e mais produtos, a querer mais e mais coisas materiais, várias delas desnecessárias ou que não nos beneficiam. O amor de alguns ao dinheiro e o vício da ganância, aumenta a jornada de trabalho cada vez mais para ganhar o mesmo ou menos, muito embora o auxílio das máquinas deveria nos levar a ter mais tempo livre. Mas, a ganância do ser humano pode substituir o trabalho humano cada vez mais pelas máquinas e não se importar com a perda de emprego de seus funcionários e desalento de suas famílias.

Paralelamente, a internet e a enorme gama de notícias, informações e conhecimento disponíveis acerca de todo o mundo pode absorver o tempo e tirar o foco do mais importante e que está ao alcance de nossas possibilidades ajudar ou fazer: o cuidado e serviço de nossos familiares e dos que estão ao nosso redor que desejam nossa contribuição em suas vidas. É necessário investir tempo para os relacionamentos, para acolher o próximo, para compartilhar o que temos vivenciado e aprendido, e assim, crescermos juntos na direção de sermos mais amorosos e justos e conseguirmos juntos realizar maior contribuição para um mundo melhor. De outro modo, para onde estamos correndo e para quê? Todos os conhecimentos humanos construídos até hoje não foram nem serão suficientes para tirar o ser humano da insensatez e da destruição. Mas, escolher o amor e a retidão, faz-nos capazes de usar sabedoria os recursos que temos, a natureza e os conhecimentos parciais dos seres humanos.

O mundo realmente evoluído espiritualmente, não é onde todos cuidam só em salvar a si mesmos. Mas, o mundo onde os menos favorecidos, os menos preparados, também tem lugar e oportunidades para se desenvolverem. Que culpa as crianças e jovens têm da formação que lhes foi dada ou negligenciada? Cabe a sociedade suprir as lacunas para que aquela vida se desenvolva construtivamente.

No mundo evoluído, não há vitória individual, enquanto outros sofrem sem poder ter oportunidades de trabalhar e se sustentar, e assim ter vida digna. No bom coração, não espaço para não se importar com as carências e necessidades do próximo. Não há evolução sem responsabilidade social, onde cada um cuida somente em salvar a si mesmo. Pois, todos tem capacidades, dons e talentos, que podem ser desenvolvidos e treinados, fortalecidos e praticados em oportunidades de trabalho na sociedade. E com o trabalho, vem as demais construções da vida: casamento e família. Mas não só com trabalho, com trabalho sem explorar ninguém, com dignidade, sem passar por cima dos valores éticos que resumem o amor e a justiça. De outro modo, o sentido novamente se perde, e aí se perde tudo: o relacionamento saudável, as interações, nada pode ser verdadeiramente construído deixando amor e retidão de lado. Tudo que é construído fora desse foco, não permanece, é ilusão, perda de tempo. Com o tempo, perecerá.

Quando as pessoas se acomodam em não ajudarem uns aos outros porque o sistema é opressivo demais, ou, porque governantes são corruptos, então, já desistiram da vida significativa. É preciso que cada um faça sua parte no semear de um país e um mundo mais solidário. É preciso decidir não se calar diante da opressão do nosso próximo. É preciso dizer não! Não vamos vender, nem negociar valores éticos. Sim, vamos pedir ajudar internacional, se necessário. Mas sobretudo ao Criador, e fazer a parte que está em nosso poder. Vamos viver em um mundo onde nossas ações possam ser sempre de amor e de retidão, e nunca enganar, manipular, destratar, desrespeitar, muito menos, tirar vantagem para sobreviver. Esse tipo de sobrevivência não faz sentido. Além de que tudo que danificamos será necessário assumir a responsabilidade em reparar, cedo ou tarde. O ser humano é feliz quando está amando e servindo verdadeiramente ao próximo, ajudando-o, contribuindo para algo que realmente o beneficia, tanto materialmente quanto espiritualmente. Quem tentar enganar ao próximo, na verdade, está se iludindo, enganando a si mesmo.

É preciso acreditar que mesmo seres humanos pequenos, mesmo indivíduos simples e sem poder, fazem a cada momento a diferença entre o justo e o injusto, o amor e a indiferença ou a exploração. Em cada momento, podemos interagir fazendo o bem e construtivo, ou causando dor e sofrimento. Está na esfera de decisão de cada um ser coerente ou não com o que chama amor e retidão.

É possível criar redes de cooperação e solidariedade para mútua ajuda. É possível denunciar e fiscalizar qualquer corrupção, seja nas leis, no tratamento de recursos ou na ação. É preciso acreditar que há um Criador que é maior que um sistema opressor, como foi maior para os hebreus quando os tirou das mãos daqueles egípcios que eram mais fortes do que eles.

É preciso acreditar que está seguro aquele que não abre mão de sua integridade, do amor e da retidão. E que os corruptos, os ladrões, os que exploram os trabalhadores, não terão bom futuro caso não se arrependam, pois, o Criador assim promete em Sua Bíblia. É questão de tempo. É questão de escolher os valores e não abrir mão por nada. E não ter medo de nada, a não ser de largar mão deles, pois, eles são o sentido: ser amoroso e ser justo. Os que se afastam desses valores, cedo ou tarde cairão sem retorno. Não percamos tempo! Fé e coragem para fazer uso do tempo em serviço ao próximo, com amor e justiça!

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Onde está o amor?

 

O amor brota no anseio do desenvolvimento do outro

Nasce no anseio por sua frutificação

Concretiza-se na ajuda nessa direção.


O amor se estabelece, primeiramente, no pensamento

É uma escolha a ser reiterada a cada momento

Um querer bem que à outra alma aproxima

Uma decisão de abrigá-la dentro de si

em uma atitude que reconhece seu pertencimento

à rede de cooperação entre os seres chamada Criação;


O amor acolhe e acaricia o outro ser no coração

dando-lhe respeito e consideração

da dignidade intrínseca de cada ser

formado pela fonte de bondade, o Criador.


O amor empresta o coração para sentir e pensar no lugar do outro,

como se um só fosse

Decide agir em prol e acolhe em aceitação, mesmo com toda sua imperfeição

Concede a confirmação do seu direito ao desenvolvimento e ao amadurecimento.


O amor é amigo, espera e reza pelo crescimento do outro.

Silencia-se quando não há abertura do seu amado para receber ajuda.

Aguarda com esperança em oração ao Criador.

Acolhe conforme a necessidade,

sem no entanto, dar suporte ao erro.

Aguarda o momento de semear, evitando magoar.

Consola o ferido, espera seu tempo,

de acordo com sua maturidade e caminho contribui,

se houver chance dele ganhar entendimento.


O amor não julga a outra pessoa,

embora enxergue e pese suas atitudes,

e perceba quer sejam positivas ou negativas,

construtivas ou destrutivas.

Aguarda o certo momento,

onde possa haver crescimento

para com carinho compartilhar,

o que possa gerar maior entendimento,

futuros discernimentos e boas decisões,

que tragam boas consequências e felicidade.


O amor também é humilde,

embora seja doação por definição,

dá ao outro o mesmo gosto de realizar esse preceito,

recebe instrução e ajuda,

busca melhorar para poder a outros mais beneficiar

Pois todos seres criados são limitados e necessitados

de sabedoria.

Mas quem quer amar aceita reconhecer suas lacunas e

falhas, para se doar com maior perfeição,

trazendo mais excelente benefício a outrem,

ao amigo com quem interage,

e assim ver sua felicidade e se alegrar

com seus benefícios.

Querer ser melhor para toda a humanidade

é amor de verdade

pois a justiça não está na parcialidade,

e o amor e a justiça andam de mãos dadas

para beneficiar em serviço ao próximo,

e sem acrescentar qualquer dano ou destruição.

Buscar amar é aprender a bondade na prática de cada situação

para não causar a ninguém tristeza, nem dor nem sofrimento,

nem prejuízo de espécie alguma.

Sem cuidar, não há amar, e amar é se importar

É também se responsabilizar e agir em benefício,

naquilo que cabe a cada um em sua influência,

conforme seu poder, capacidades, talentos

e oportunidades.




terça-feira, 24 de agosto de 2021

Mulheres: Diferentes, mas de igual valor

 

A sociedade ocidental (e, talvez, outras sociedades também) vem vivendo uma crise na instituição do casamento, que se repercute na família e na sociedade. A crise do casamento demonstra a dificuldade ou inabilidade do casal em estabelecer relacionamentos saudáveis, funcionais e harmônicos, onde a paz, a justiça e a felicidade predominam em seu lar.

Uma das causas dessa crise no casamento tem sido o abuso de autoridade do marido para com a esposa. No passado, isso era possível, pelo homem ter estado na posição daquele que traz dinheiro (provisão) para a família, mediante o trabalho fora de casa. A mulher pode ter se sentido desvalorizada em seus esforços e trabalhos domésticos, por esses não serem remunerados, e/ou pela falta de reconhecimento do valor desses em seu próprio lar, e/ou, na sociedade.

A mulher, como qualquer outro ser humano, gostaria de ser considerada de igual valor aos outros seres humanos. Parece que o conceito do valor de um ser humano, em vez de estar vinculado solidamente à essência do seu ser, atrelou-se ao dinheiro ou bem materiais que a pessoa produz. Afinal, por que o ser humano que vive na prática dos bons e justos valores, ajudando conforme suas possibilidades, não seria tão valoroso como qualquer outro que busca o mesmo?

Vários direitos que os homens possuíam, não eram concedidos às mulheres, como o direito de votar, o direito de dirigir, o direito a trabalhar fora de casa, etc. No passado, em algumas civilizações, a mulher não tinha direito de ser uma testemunha para depor em um tribunal. A mulher não tinha autonomia. Ela era parcialmente capaz perante a sociedade, necessitando de permissões do marido. Se o esposo fosse um bom líder, não dominador, respeitoso, e ela fosse valorizada como lhe é devido, ela podia ter um bom casamento e uma vida feliz. Mas, e se ele fosse um opressor, um líder dominador ou a maltratasse? Então, ela estaria refém dele, sofrendo dentro de uma prisão, sem ninguém para ajudá-la, pois, seu suposto ajudador (seu marido), tinha plenos poderes sobre ela, sendo responsável por ela perante a lei, da mesma forma que um pai é por sua filha solteira, e a sociedade lhe dava ouvidos através do marido.

Mulheres, sabendo de casos de opressão de outras mulheres, começaram a se unir e se organizar para ajudá-las a se libertarem de seus maridos que as oprimiam ou agrediam. A aquisição de autonomia das mulheres foi necessária devido a abusos de autoridade cometidos por seus maridos. Mas, não somente devido a isso. A mulher gostaria de ter sua opinião como cidadã respeitada sobre política e na sociedade, em geral. Várias mulheres tinham o desejo de estudarem mais para poderem ajudar a sociedade em outras áreas de trabalho ou atuação, além das tarefas domésticas ou das profissões consideradas femininas naquela época. Para isso, precisavam da autorização de seus maridos e que a sociedade lhes desse oportunidades de estudo e atuação nas diferentes áreas, que, até então, eram estritamente masculinas.

Nesse sentido, essa mobilização das mulheres, chamada “movimento feminista”, passou a lutar pela independência da mulher em relação ao seu marido, para garantir proteção a elas de seus maridos abusadores ou violentos, e pela sua autonomia de forma geral e aquisição de direitos iguais aos dos homens (sem necessitar da permissão do marido, tal como uma criança – ao que se dá o nome de “emancipação feminina”), como o direito ao estudo, ao trabalho remunerado, ao voto, a dirigir, enfim, a realizar suas escolhas individuais de maneira autônoma e em igualdade com os direitos dos homens. Muitas vezes, a mulher havia sido considerada não tão capaz quanto o homem para realizar determinadas funções. Na medida em que as lutas por oportunidades de estudo e atuação em diversas áreas sociais foram sendo vencidas, as mulheres têm se mostrado muito capazes, desde então.

A mulher não quer ser reduzida à posição de escrava nem ser um objeto de uso de seu marido., nem de ninguém. A mulher, como esposa, é uma ajudadora, que deveria ser honrada por seu marido, pois ela o completa e é parte fundamental na construção do lar e da família. A construção do lar envolve tarefas físicas, mas também relacionais e educacionais, pois requer sabedoria relacional e educacional, e vivência de valores éticos (comportamento ético e controle sobre suas emoções e reações) que seja modelo educacional. Exige dedicação e aprendizado nessas áreas. Ninguém quer ser reduzido, nem usado. No casamento, ambos devem servir um ao outro, se doando em amor, em ajuda mútua e na construção comum do lar, que deve ser um ambiente de respeito, paz, afeto, valorização e ajuda mútua e amor, onde pessoas podem se desenvolver e amadurecer. Ambas as partes, marido e mulher, são igualmente valorosas e fundamentais para essa construção do lar, embora possam ter talentos e funções distintos.

Todas as colaborações e cooperações em sociedade devem considerar que todos são igualmente valorosos (intrinsecamente, em sua essência, todos os seres humanos foram feitos à imagem e semelhança do Criador, que é sempre bom, conforme a Bíblia Hebraica (antigo testamento)) e contribuem, dentro de suas possibilidades, dons e talentos, para uma construção comum. Mesmo que haja um líder, o valor do liderado não é menor que o valor do líder. Eles realizam funções distintas e que se completam. Todos somos interdependentes desde bebês até a velhice e na morte.

Toda relação utilitarista não é uma relação de amor verdadeiro. Pois, o amor verdadeiro se doa pelo próximo, sem o desejo de se aproveitar dele ou de usá-lo para determinado fim egocêntrico. O amor se doa naquilo que contribui para que o outro seja pleno e feliz, no exercício e expressão do seu ser (em amor e justiça), dos seus dons, talentos e cumprimento de suas missões no mundo. Quem ama cuida para que nada falte a pessoa amada daquilo que ela realmente necessita como ser humano.

A história sobre a aquisição de direitos da mulher em igualdade com os direitos dos homens, pode nos ajudar a refletir sobre essa tendência do ser humano a dar maior valor às atividades e pessoas mais bem remuneradas, ao dinheiro em si. Isso não corresponde à realidade, pois há muitas bondades e serviços que não são contabilizados nem recebem recompensa financeira ou talvez nem sejam vistos por outros olhos humanos, mas são essenciais. Aliás, o mundo é sustentado pelos atos de bondade, de doação pelo próximo, sem ter intenção de receber nada em troca. E eles não são, muitas vezes, remunerados, são dados gratuitamente, sem interesse, por amor.

Da mesma forma, o casamento também não pode ser sustentado verdadeiramente, sem amor doador. Muito desses serviços podem ser erroneamente considerados sem (muito) valor para pessoas ou para sociedade, pois não são pagos, mas os valores éticos vividos fazem com que se construa o lar, local fundamental para dar condições ao desenvolvimento e crescimento humanos apropriados (o lar é, de certa forma, a incubadeira da sociedade). E, de muitos lares saudáveis se constrói uma sociedade harmônica e cooperativa. Talvez, seja exatamente a correção dos valores e das ênfases dos nossos tempos e esforços que deva ser realizado, para que nossos casamentos, famílias e sociedades sejam mais humanas, mais pacíficas, mais valorizadoras do diferente delas, mais respeitadoras da doce harmonia da cooperação de uma grande família onde todos são igualmente valorosos e importantes na construção comum.

A mulher deve se respeitar e se grata pelo ser que é, na bela essência que a caracteriza, e pelas capacidades que recebeu do Criador. A mulher, em particular, foi dotada de uma habilidade especial que consiste na capacidade de gerar filhos em seu próprio corpo. Mas, isso não a resume, nem a seus talentos e características. É parte de seu potencial. Nenhum ser humano é igual a outro em suas características, talentos e dons, mas, todos têm o mesmo valor, em sua essência. A mulher não é fisicamente igual ao homem, nem deve tentar ser igual para ter o mesmo valor. Ela tem o mesmo valor, mesmo que alguém não o reconheça. É um problema dos olhos de quem vê, dos valores, desejos e interesses que a pessoa abriga no coração. Também, a solução não está em diminuir ninguém, nem mesmo se a pessoa tenha sido opressor. Se foi um opressor, machucou primeiramente a si mesmo, à sua essência, além de outras pessoas.

A solução está em não deixar que coisas ou circunstâncias como o poder, o status ou o dinheiro definam os valores da sociedade. Quem coloca essas coisas acima do amor, da justiça, da alegria de servir ao próximo para benefício dele, não pode ter uma vida significativa, feliz e construtiva, seja no âmbito conjugal, familiar ou social.

Outro aspecto a ser refletido é o fato de que ambos do casal trabalhando fora de casa, muito provavelmente, não tem mais tempo para se dedicarem à educação dos filhos como antes. Especialmente, a mulher é frequentemente sobrecarregada, pois, além do serviço doméstico, tem que dar conta do trabalho fora de casa e da educação dos filhos. É muito fácil perceber que uma pessoa que se dedica jornada integral de trabalho, dificilmente poderá até mesmo cuidar dos afazeres domésticos apropriadamente. Pode ser que, para isso, faça uso dos finais de semanas, das folgas, feriados e férias para pôr em dia o que não teve tempo para resolver durante as semanas de trabalho. O tempo dedicado aos filhos, o acompanhamento apropriado de que eles necessitam, as oportunidades para conversar e receber instruções para a vida ou desfrutar de atividades familiares saldáveis é muito reduzido. Isso, se o ambiente em casa for harmônico e funcional.

A consequência da sobrecarga de trabalho da mulher, e, às vezes, também do homem, é falta de desenvolvimento apropriado das novas gerações, a falta de orientação e educação apropriada dos filhos. As crianças e adolescentes estão cada vez mais a mercê das informações que encontram nas mídias e redes sociais, sem ter com quem dialogar sobre elas mais intimamente, e assim desenvolver consciência crítica, sólido alicerce de valores éticos, etc. A escola não aborda todos os assuntos e problemáticas com os quais as crianças e adolescentes se chocam. E lá fora, o mundo está bastante confuso, e muitas vezes, com valores distorcidos pela valorização do dinheiro, dos bens materiais, do poder, da posição social (status) e da honra de uns em detrimento dos demais. Isso, sem mencionar a crise escolar, principalmente da escola pública brasileira, da sua falta de estrutura para lidar com as demandas, a desvalorização da educação pelo país e de seus profissionais, e a dissociação de alguns modos e conteúdos escolares com as necessidades humanas e os problemas da vida real dos alunos, suas famílias e comunidades.

Portanto, a questão da valorização da mulher requer que a sociedade como um todo reflita sobre os valores que vem escolhendo e quais são as metas para o futuro. Seria sábio que nos lembremos que os valores das pessoas não estão em questões circunstanciais de exercer ou não atividade profissional remunerada, por exemplo. Mas cada ser humano tem valor intrínseco e é único, com uma combinação de características únicas, talentos, dons e capacidades, conforme suas missões a realizar. Cada um tem missões únicas a realizarem, as quais outras pessoas não são capazes de fazer. Há, portanto, a necessidade de compreender melhor que não devemos estar em competição, mas em cooperação, pois, todos somos interdependentes e precisamos de muitas coisas para nossa sobrevivência e desenvolvimento, para suprir nossas necessidades humanas e desempenhar nossas missões.

Esse pensamento se aplica mais precisamente na área do casamento, no entendimento de que todos temos fraquezas e fortalezas em diferentes áreas. E essa é a beleza da diversidade com que o Criador fez o mundo. Se a mulher é capaz de gerar filhos dentro de seu corpo, isso é um dom maravilhoso que não deve ser diminuído em relação aos demais. Seus hormônios podem fazer com que seja mais emocionalmente vulnerável às vezes, o que não tira de forma alguma sua beleza e valor. Além disso, a mulher pode ter missões de contribuição não somente na esfera familiar, mas também na sociedade como um todo, remuneradamente ou não. O foco é que um cônjuge ajude ao outro a se desenvolver e usar seus talentos e dons para contribuir ao máximo para a família e sociedade.

Devemos ser ajudadores uns dos outros e não competidores. A comparação e a competição não fazem nenhum sentido. Cada um é único e possui única combinação de características essenciais, dons e talentos. Por isso, a missão de cada um, só cada um pode desempenhar da forma única como faz. É importante que todos sejam plenos e genuínos e tenham liberdade para isso, na multidão de diversidades de características, talentos e dons que existem. Também a mulher que deseja se dedicar somente a seu lar deve ter liberdade e valorização para mergulhar em sua missão, sem sofrer preconceitos ou julgamentos negativos. Cabe a nós escolhermos ter a mentalidade de como ajudamos a construir os outros (que são diferentes de nós), sem diminuí-los, dominá-los ou oprimi-los.

A competição não faz sentido, pois todos devem ter direito ao trabalho remunerado e ao sustento. Algumas pessoas impossibilitadas são exceções. Mas, elas não deixam de poder também brilhar com suas contribuições, de outra maneira, à sociedade. Não deve haver espaço para a diminuição de um ou a exaltação do outro. Todos temos igual valor intrínseco. É só focarmos nas nossas potencialidades em amar e fazer boas e justas ações que somos todos muito frutíferos e férteis em diferentes áreas. Precisamos nos responsabilizar por ajudar uns aos outros para que ninguém esteja excluído do cuidado social e da rede de cooperação que deve funcionar harmonicamente. Para isso é necessário reconhecer os valores intrínsecos e iguais nos seres humanos, e perceber a rede de contribuições mútuas da qual todos interdependemos. Na natureza, a cooperação em que todos participam também é essencial à manutenção da vida. Qualquer prejuízo de uma parte dessa cooperação, prejudicam todo o ecossistema.

Da mesma forma, esposo e esposa são complementares e interdependentes na formação de um lar harmônico em que todos sejam igualmente valorizados e tenham espaço para se desenvolverem plenamente. Precisamos, para isso aprender a respeitar e amar o diferente de nós, apreciando seus dons e características que nós não temos, em vez subjugá-los, diminui-los ou julgá-los desfavoravelmente. Assim, aprendemos e crescemos uns com os outros em liberdade de escolhas e iremos numa direção construtiva nas relações conjugais, familiares e sociais. Pois, não podemos esquecer que é do lar construído por um casal que gera novas pessoas, e de diversos lares e constitui a sociedade. Então, precisamos pensar com carinho como estamos ajudando ou não as crianças a se prepararem para a vida em sociedade, dando a elas os subsídios, suporte, amor e cuidado comprometidos com suas necessidades básicas humanas.


*agradecimento ao desenhista da pixabay.com que gentilmente cedeu a ilustração deste artigo.

terça-feira, 13 de julho de 2021

Educação é Reflexo da Prática dos Valores Éticos e Responsabilidade Social

 


Acredito em uma educação onde a liberdade e o respeito ao indivíduo e seu desenvolvimento devem ser prioritários. Certamente é importante que as pessoas sejam alfabetizadas nas diferentes áreas do saber para que o indivíduo consiga participar ativamente do debate e das decisões da sociedade e do país em que vive. Mas, será que a população participa das decisões do país? Deveria, segundo os princípios constitucionais embasados na democracia. Democracia é o regime político onde os políticos deveriam expressar em suas atuações as vontades do povo que os representa.

Na minha percepção, a democracia no Brasil, em certos aspectos, não é ainda uma realidade do ponto de vista prático. Acredito que o povo não está a favor de jornadas estendidas de trabalho, da exploração do menos favorecido, da indiferença às necessidades da população, da desvalorização das profissões que não usam somente o intelecto, como as de agricultor, jardineiro, técnico em saneamento básico, lixeiro, etc.

Parece que a estrutura dos interesses de alguns grandes proprietários de terra, alguns políticos e alguns dos que concentram grande quantidade de riquezas acabam sempre oprimindo os trabalhadores que não possuem bens materiais. Assim, o país vem se perpetuando em oprimir o pequeno em prol do grande. Também ocorre com o professor, com suas precárias condições de trabalho, salários e da forma desrespeitosa como o governo trata o professor, principalmente no primário e secundário.

Tudo indica que os interesses de lucro dos grandes e poderosos continuam condenando os mais simples à vida sem dignidade, sem respeito, com angústia para pagar as contas, talvez, até com dívidas ou ameaçada pela falta de dinheiro. Não há consideração, as pessoas temem não conseguir sobreviver ou não terem uma qualidade de vida razoável.

O Brasil é um país em que o medo da exclusão social ou de viver em situações precárias é cada vez maior para pessoas capazes e com bom nível de estudo. As pessoas são oprimidas por um sistema onde o dinheiro e o lucro de alguns faz a vida ser miserável e penosa para grande parte do povo. Como eles fazem isso? Fazendo a maioria do povo trabalhar duro e por grande parte de tempo e produzir cada vez mais, sem remunerar de maneira digna e respeitosa, de modo que o sujeito e sua família temem não dar conta dos custos básicos da vida. O governo não põe limite nos abusos de como as empresas tratam funcionários e até clientes, pois ele mesmo maltrata sua população.

São os filhos dos trabalhadores explorados e sofridos que lutam para sobreviver no dia a dia e não tem tempo para seus filhos, que vem à escola pública brasileira. Nessa escola, a criança é cada vez mais exigida a conhecer a história do conhecimento humano e dominar as ferramentas básicas de cada disciplina.

Esse indivíduo em crise, que quase não vê seus pais (pois estão trabalhando, às vezes, em jornada dupla, ou com dois trabalhos, ou com um dos pais desempregados) e, quando os encontra testemunha sua batalha e angústia, que vem à escola. É requerido dele que tenha “cabeça” para aprender diante dos problemas que está inserido no seu lar e na sociedade. Na escola, são apresentados sistemas e conhecimentos que teoricamente “funcionam”, como se tudo estivesse bem, mas lá fora, tudo está mal. A sensação da criança ou indivíduo é, portanto, de que a escola é uma mentira. Pois, a realidade é a que ela vê todos os dias em seu lar, em sua vizinhança. Na sua frente, ela vê um professor que ela sabe que é explorado e maltratado pelo governo. Se o governo trata mal o professor, porque a criança lhe trataria bem e lhe daria ouvidos? O professor não é suficientemente valorizado para conseguir dar as suas aulas em paz, sem ficar preocupado com as contas que tem que pagar e estressado com sua carga de tarefas.

A criança, quando pequena, pode ser enganada, achando que a vida é como os desenhos animados que ela encontra na televisão. Mas, depois que cresce um pouco e os problemas antes encobertos pelos adultos são revelados, a escola não faz nenhum sentido.

Outro problema é que talvez essa criança não seja escutada por ninguém. Em casa, os pais não têm tempo. Na escola, os professores também não têm tempo de acompanhar o desenvolvimento e o crescimento de nenhum aluno. São aproximadamente quarenta em cada classe. A indisciplina e falta de respeito com o professor é enorme. Em certas escolas, o professor não conseguirá nem iniciar sua aula, pois os alunos conversam alto e o ignoram. O professor vai de uma classe à outra o dia inteiro. Quando chega em casa tem que corrigir lições de casa e provas, e preparar as aulas do dia seguinte.

Então, é possível que algumas dessas crianças e adolescentes para os quais a escola é uma mentira, também não queiram ouvir o governo que oprime ou deixa oprimir seus pais e professores, representada por eles. O aluno não é ouvido. Se tiver um psicólogo, coordenador ou diretor na escola é algo positivo. Às vezes eles estão no segundo emprego, às vezes, sei lá onde. Em resumo, muitas vezes não estão lá quando se precisa. E bedéis? Quando existem, talvez estejam tentando conter a revolta, o uso de droga, etc, e outros problemas. Talvez estejam no seu segundo emprego ou bico também, para conseguir completar o pagamento de suas contas. Talvez tenham sido ameaçados de morte por alguns alunos. Talvez estejam com depressão, por trabalhar em um sistema de contenção de alunos e saber que não estão se desenvolvendo como deveriam....

Quando o professor consegue conter um pouco da indisciplina, apresenta o conteúdo e exige o conhecimento. Alguém perguntou ao aluno o que ele gostaria de aprender? Será que ele sabe para que serve? Qual a relação dos conteúdos com as necessidades humanas? Não. Tudo é geralmente alheio a seu mundo e teórico. Ele é exigido, exigido, e está sempre devendo. Desde que saiu do jardim de infância até o fim do segundo grau, mais, mais, tem que passar de ano, tem que tirar diploma. Para que? Para ter emprego. Por que? Porque todos têm que ter diploma escolar para conseguir emprego.

Diante desse quadro, gostaria de apresentar aqui uma outra proposta de educação. Uma proposta onde a educação seja centrada nas necessidades humanas. Onde o ser humano, não seja respondido com respostas como: “nossa sociedade é assim”. Mas pense, junto com o professor, como o ser humano tem lidado com a natureza e uns com os outros, para ter suas necessidades básicas atendidas. É necessário que através do diálogo que relaciona o mundo real e os conhecimentos, os problemas reais da sociedade sejam trazidos e as soluções que vem sido tomadas e suas consequências sejam avaliadas, em seus aspectos positivos e negativos.

É necessário que o indivíduo entenda como a sociedade atual tem resolvido seus problemas para sanar suas necessidades básicas e quais são as diferentes possibilidades de resolução que se encontram hoje no mundo. A educação deve ser um convite à participação do conhecimento elaborado, mas não somente isso. Esse conhecimento deve ser problematizado e dialogado (de acordo com Paulo Freire1). Mas, essa análise deve ser feita em termos do quê? Compreender os conhecimentos desenvolvidos e as necessidades humanas a eles relacionadas. Pesar a possível aplicação dos conhecimentos à realidade prática e suas consequências à luz dos valores éticos que a sociedade escolheu viver. Se a educação elaborada no nosso país é estudada para obter empregos mais bem pagos, ela não vai fazer sentido, principalmente se o profissional, para isso, tiver que corromper os valores éticos nos quais acredita, em prol do status quo de uma sociedade que concentra renda nos mais favorecidos e não se responsabiliza do cuidado dos mais fragilizados a ponto de sanar suas carências e resolvê-las.

Informação por informação, o conhecimento elaborado não faz sentido, ao menos que ele esteja submetido aos valores éticos que realmente construam uma sociedade que se importa com o próximo, não uma que explora e exclui às margens os que nela não se ajustam. Também conhecimento sem compreender para que serve em relação às necessidades humanas e da natureza, também não faz nenhum sentido. Elaborar sem saber para que, como se usa na prática e se está de acordo com os princípios éticos é muito vazio e destituído de sentido. Aliás, a alienação da natureza e a não compreensão da relação das tecnologias com ela e com as necessidades humanas, também não faz sentido. O ser humano necessita do contato com a natureza. Privá-la desse direito e necessidade humana é, no meu ponto de vista, um grande crime. O ser humano deve estar em harmonia com a natureza e com os outros seres humanos, para que haja uma sociedade em que há paz e construção. Teorização sem a natureza provoca alienação elaborada.

Todas as pessoas têm diferentes potenciais e talentos, e podem ser treinados seja no que for, para terem suas profissões e através delas colaborarem com a sociedade. A exclusão social não se justifica. Todos, com gravíssimas exceções, são capazes de colaborar para a sociedade de acordo com suas capacidades e talentos e serem remunerados dignamente para tal. O direito de todo ser humano ao trabalho que provê vida digna deve ser protegido (e os que não podem trabalhar devem ser supridos em suas necessidades pelo governo e colaborar à sociedade da maneira que lhes é possível).

Mas, quem está ajudando o aluno a descobrir a si mesmo e seus talentos, e a saber como pode ser através deles alguém atuante para construir uma sociedade cooperativa e que respeita e valoriza um ao outro, em vez de deixá-lo sozinho, “na mão”? Quantas pessoas hoje estão trabalhando informalmente ou em bicos, pois, embora tenham estudado, a sociedade não está provendo condições para elas exercerem seus potenciais em completude? E se não está, por que não está? Qual é o foco dessa crise e como saná-la? Ignorar as alarmantes questões da sociedade e dos pais das crianças em idade escolar, é ignorar a criança e seu próprio futuro.

O objetivo da escola deveria ser ajudar o aluno a se conhecer e descobrir seus talentos e dons, para que se desenvolva autenticamente e nas suas relações com o próximo. Isso conjuntamente com o conhecimento sobre a natureza e o ser humano e suas necessidades, deve propiciar que ele consiga, aos poucos, vislumbrar como ele pode cooperar e ajudar aos outros através do comportamento ético e conhecimentos adquiridos, conforme esses dons, talentos e sua missão específica.

O que a criança recebe são exigências, exigências, e mais exigências, Como ela se verá como alguém que faz parte da construção social? E se ela não faz parte, então ela buscará achar aonde ela faça parte e seja bem tratada e valorizada. E talvez seus líderes não a guiem em um caminho justo e feliz, e só a usem para seus próprios interesses. Talvez até ela se corrompa, porque a política da indiferença não é aceitável. Ela abandona as pessoas carentes de direção e experiência.

Afinal, para que serve a educação escolar pública? Para dar merenda? Para alguém estar com as crianças ou adolescentes enquanto seus pais trabalham? Para uma criança influenciar a outra, e todos estarem sem direção para resolverem suas vidas e a vida de suas famílias? Vejo essa criança sozinha e muito exigida, e ela geralmente não sabe para que e por quê. Para agradar os pais? Para receber o diploma? Talvez o sistema de educação seja um grande desrespeito às necessidades das crianças e suas famílias. Se a escola representa os valores do governo em mercadejar tudo e não tomar responsabilidade pelo seu povo, e os valores éticos forem todos vendidos, não há sentido em nada. Esse é o caos do contexto da criança e adolescente em idade escolar no Brasil hoje. Talvez haja exceções. Mas, isso é natural, porque os problemas dos pais naturalmente afetam os filhos e o lar.

A sociedade diz ao jovem que ele está em um lugar onde não há respeito, consideração, nem cuidado com as pessoas e suas necessidades. A sociedade diz ao jovem que seus rios são poluídos pelas empresas e empresários sem consideração com a população. A sociedade diz ao jovem que há corrupção para todos os lados, no governo, nas empresas. O egoísmo e corrupção reinam em diversas instituições da sociedade, pois não se põe limite na injustiça, no maltrato e na opressão. A sociedade diz ao jovem que todos estão competindo e preocupados em salvar a si mesmos, em um sistema individualista em que raramente um ajuda o outro a se desenvolver.

A sociedade diz ao jovem que vivemos com medo dos bandidos, que são, cada vez, em número maior. A sociedade expõe a criança à nudez, sensualidade e imoralidade pelos veículos de publicidade, imprimindo terríveis valores materialistas, vaidade e imoralidade. E o país é um salva-se quem puder, onde os poderosos e ricos oprimem os pequenos. Ninguém acredita em políticos e todos estão sozinhos. Ou seja, o número de problemas que estamos delegando a esses jovens é enorme, e consequentemente, seu sofrimento.

Mas, porque estão sozinhos? Por que não cooperamos? Por que cedemos ao egoísmo? Por que um sistema competitivo e desumano foi se estabelecendo com cada vez mais força, oprimindo os trabalhadores e desvalorizando-os? Mas, se todas as profissões são importantes e todos precisam dos trabalhadores braçais e os intelectuais, por que um vive com dignidade e outro não? Às vezes os oprimidos cansam e se deixam seduzir por propostas ilícitas como narcotráfico ou outros sistemas imorais de lucro. Aí eles morrem, golpeiam ou matam, por dinheiro, ou para não serem humilhados, o que, no entanto, não é um caminho justificável. Mas, não acreditam em um sistema que o abandonou, e às vezes têm dificuldade em encontrar outra solução em seu mundo de problemas reais.

O indivíduo está sozinho desde criança. Não há condições para seu desenvolvimento saudável, para sua participação, por consideração à sua pessoa como um novo contribuinte e integrante da sociedade. Ele é exigido, exigido, tirar notas, passar, passar. Está sempre devendo. É “workaholic”, ou melhor “sobrecarregado em estudos e trabalho desde a infância, numa sociedade que explora e não cuida”. Pois, os conteúdos e assuntos são infinitos e pouco digeridos em seu contexto real. Não é a quantidade, mas a qualidade de reflexão e contextualização com a vida real do aluno e da sociedade que torna frutífero e motivador o estudo vinculado à resolução de problemas para a construção de um mundo melhor. Aí entra o estímulo ao aluno a se conhecer e a seus talentos, para compreender no que tem dons e facilidades para colaborar socialmente nessa construção.

E o aluno: Quem ele é? Quais são seus talentos? Como pode ajudar a sociedade? Ele não sabe. Por quê? Porque a sociedade não dialogou, não ensinou para a vida prática, não transmitiu valores éticos como prioridade. Não teve tempo para saber. Encheram o tempo dele com um conteúdo infinito e que muitas vezes mentiroso e hipócrita, pois finge que há uma sociedade que funciona, enquanto a verdade é que a cooperação e a sociedade se convergiram para um egocentrismo em função do dinheiro e da capitalização dos maiores e sofrimento dos menores. Deveria ele confiar nas pessoas que dão suporte a um sistema como esse? O bom-senso responderia: “não”.

Em resumo, é necessário uma educação em que os conhecimentos estejam em função dos valores éticos para construção de uma sociedade íntegra. Conhecimentos devem responder às questões dos alunos de como o ser humano tem suprido suas necessidades básicas (dentre as quais o psicólogo Marshall Rosenberg cita as necessidades de: autonomia, interdependência, integridade, nutrição (atrelada à segurança), brincar, celebrar e ter comunhão espiritual2) e por que aqueles conhecimentos foram desenvolvidos, quais suas consequências positivas e negativas.

Em nossa sociedade, a tecnologia e o conhecimento, por vezes, tem sido usados sem serem pesadas em seu impacto na sociedade. Por isso, é muito importante recolocar a importância e centralidade da prática dos valores éticos na sociedade, do respeito, da valorização mútua, da cooperação, da solidariedade e ajuda mútua. E isso se concretiza através de uma comunidade na escola e fora da escola que se mobiliza para cuidar e ajudar de suas necessidades, com o suporte do governo. São necessários um governo e uma atuação social responsável uns para com os outros. São necessárias escola, comunidade e sociedade atuantes, que pratiquem e cultivem os valores éticos: o respeito, a consideração, a solidariedade, a cooperação e ajuda mútua.

Alguns exemplos de como os valores éticos são transgredidos são, por exemplo: como as empresas e governo tratam seus empregados, como o governo não evita a poluição dos rios nem a devastação das nossas florestas, como os bueiros das ruas estão cheios de lixo por falta de colaboração da população com o trabalho do lixeiro, como as companhias telefônicas e serviços tratam o consumidor e com tarifas cada vez mais exploratórios, sem que se coloque limite nos abusos. Enfim, um desrespeita o que é do outro e a natureza… o egoísmo e venda de valores éticos em prol do dinheiro reinam. Como então falar em educação nesse contexto para os mais novos, se a desmoralização está por toda parte que eles interagem? Não se pode ser educador de valores éticos se nossa vida prática enquanto indivíduos, profissionais e sociedade evidenciam o contrário, seja por que razão for. As crianças e adolescentes são inteligentes e perceptivos o bastante para notarem todas as incongruências entre o que se diz e o que se vive.

O conhecimento deve servir para ajudar as pessoas a participarem das decisões políticas através dos seus representantes (com relação às necessidades humanas básicas na sociedade), cobrando sua atuação e não votando naqueles que não os representaram adequadamente. O sistema político deve ter meios acessíveis de participação popular, para que as pessoas voltem a acreditar na política e no país, e que elas efetivamente façam parte da construção do país, para aplicação dos valores éticos e conhecimentos que deveriam aprender também na escola. Mas, se o sistema é corrompido, se não há condições de seus professores se sustentarem dignamente e o conhecimento é usado para lucro individual em detrimento da maioria, essa escola não faz sentido para o aluno. Ela não é uma tutora honesta da realidade que ajuda a desenvolver para a vida e luta por princípios éticos, não na perpetuação da opressão e desrespeito ao povo.

1Freire, P. A Pedagogia do Oprimido; Freire, P. Pedagogy of the Heart. Ed. Bloombury (Great Britain).

2Rosenberg, M. B. We can Work it Out – Resolving Conflicts Peacefully and Powerfully. Rosenberg. M.B. Comunicação Não-Violenta. Editora Ágora.

Quando Nossa Educação Deseduca

  A nossa educação deseduca sempre que ensinamos conhecimentos, sem instruir os valores éticos que devem dirigi-los. A nossa educação ...